A gordura visceral, também denominada adiposidade central ou intra-abdominal, é hoje reconhecida como um dos principais determinantes do risco cardiovascular global. Diferentemente da gordura subcutânea, a gordura visceral está metabolicamente ativa e fortemente associada à morbimortalidade cardiovascular, independentemente do índice de massa corporal (IMC).
Estudos epidemiológicos demonstram que indivíduos com circunferência abdominal aumentada apresentam maior incidência de hipertensão arterial, diabetes mellitus tipo 2, dislipidemia aterogênica, doença arterial coronariana e acidente vascular cerebral. Diretrizes internacionais, como as da American Heart Association (AHA), do American College of Cardiology (ACC) e da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), reconhecem a obesidade central como fator de risco cardiovascular maior, mesmo em indivíduos considerados eutróficos pelo IMC.
Fisiopatologia: por que a gordura visceral é mais perigosa
Atividade endócrina e inflamação crônica
A gordura visceral atua como um verdadeiro órgão endócrino. Os adipócitos viscerais secretam adipocinas pró-inflamatórias, como TNF-alfa, interleucina-6 e resistina, além de reduzirem a liberação de adiponectina, uma substância com efeitos anti-inflamatórios e vasoprotetores.
Esse estado inflamatório crônico de baixo grau promove disfunção endotelial, aumento do estresse oxidativo e ativação de vias aterogênicas, criando um ambiente propício ao desenvolvimento e à progressão da doença cardiovascular.
Relação com o sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA)
A adiposidade visceral está associada à ativação inadequada do sistema renina-angiotensina-aldosterona. O tecido adiposo visceral expressa componentes do SRAA, favorecendo vasoconstrição, retenção de sódio e água, aumento da resistência vascular periférica e elevação sustentada da pressão arterial.
Esse mecanismo explica, em parte, a forte associação entre gordura abdominal e hipertensão arterial resistente ou de difícil controle.
Impactos metabólicos e aterogênese
Resistência à insulina e dislipidemia
A gordura visceral é um dos principais determinantes da resistência à insulina. O aumento do fluxo de ácidos graxos livres para o fígado estimula a produção hepática de glicose e lipoproteínas aterogênicas, resultando em hipertrigliceridemia, redução do HDL-colesterol e aumento de partículas pequenas e densas de LDL — um perfil altamente aterogênico.
Aterosclerose e rigidez arterial
A combinação de inflamação, dislipidemia e disfunção endotelial acelera a aterogênese desde fases subclínicas. Indivíduos com elevada gordura visceral apresentam maior espessamento médio-intimal carotídeo, maior rigidez arterial e maior carga de placa aterosclerótica coronariana, mesmo na ausência de sintomas clínicos.
Remodelamento cardíaco e consequências hemodinâmicas
A obesidade visceral impõe sobrecarga hemodinâmica crônica ao coração. O aumento do volume plasmático, da pressão arterial e do débito cardíaco contribui para o desenvolvimento de hipertrofia ventricular esquerda e alterações estruturais do miocárdio.
Esse remodelamento cardíaco está associado a maior risco de insuficiência cardíaca, especialmente com fração de ejeção preservada, além de favorecer o surgimento de arritmias, como fibrilação atrial.
Benefícios e riscos da redução da gordura visceral
A redução da gordura visceral está associada a benefícios cardiovasculares expressivos, incluindo melhora da sensibilidade à insulina, redução da pressão arterial, melhora do perfil lipídico e diminuição de marcadores inflamatórios.
Entretanto, estratégias inadequadas para perda de gordura — como dietas extremamente restritivas, uso indiscriminado de medicamentos ou suplementos e práticas não supervisionadas — podem acarretar riscos metabólicos, perda de massa muscular, desequilíbrios hormonais e piora da saúde cardiovascular. Por isso, qualquer intervenção deve ser orientada por profissional de saúde.
Abordagem clínica e manejo (sem posologia)
O manejo da gordura visceral deve ser multifatorial e individualizado:
- Avaliação clínica e antropométrica, incluindo circunferência abdominal e, quando indicado, exames de imagem para quantificação da gordura visceral.
- Identificação de fatores de risco associados, como hipertensão, diabetes, dislipidemia e apneia obstrutiva do sono.
- Intervenções no estilo de vida, com foco em alimentação equilibrada, redução de ultraprocessados, prática regular de atividade física aeróbica e resistida.
- Tratamento farmacológico das comorbidades, quando indicado, conforme diretrizes da AHA, ACC e ESC, sempre com acompanhamento médico.
Em casos selecionados, abordagens mais intensivas podem ser consideradas, respeitando critérios clínicos e avaliação de risco-benefício.
Prevenção primária e secundária
Prevenção primária
A prevenção da adiposidade visceral deve começar precocemente, com promoção de hábitos saudáveis desde a infância e adolescência. Alimentação adequada, atividade física regular, sono de qualidade e manejo do estresse são pilares fundamentais para evitar o acúmulo de gordura abdominal.
Prevenção secundária
Em indivíduos já com excesso de gordura visceral, o objetivo é reduzir o risco cardiovascular global. Isso envolve controle rigoroso das comorbidades, acompanhamento clínico regular e estratégias sustentáveis de mudança de estilo de vida.
Considerações finais
A gordura visceral é um dos mais importantes e subestimados fatores de risco cardiovascular da atualidade. Seu impacto vai muito além da estética, envolvendo inflamação sistêmica, disfunção metabólica, aterogênese acelerada e remodelamento cardíaco. O reconhecimento precoce e o manejo adequado da adiposidade visceral são fundamentais para a redução da morbimortalidade cardiovascular. Em todos os casos, a avaliação e o acompanhamento médico são indispensáveis para garantir segurança, eficácia e resultados sustentáveis.




