Nos últimos anos, a terapia psicológica ganhou grande visibilidade e aceitação social. Esse avanço é extremamente positivo, pois contribui para a redução do estigma em torno da saúde mental e amplia o acesso ao cuidado psicológico. No entanto, paralelamente a esse movimento, surgiu um fenômeno preocupante: a romantização da terapia como uma solução mágica para todos os problemas emocionais, comportamentais e até sociais.
O crescimento da terapia no discurso popular
A terapia passou a ser amplamente divulgada em redes sociais, podcasts e conteúdos motivacionais. Frases como “faça terapia e tudo se resolve” ou “terapia é a resposta para qualquer problema” tornaram-se comuns. Embora bem-intencionadas, essas mensagens contribuem para uma visão simplista e irrealista do processo terapêutico.
A terapia não é um produto de consumo imediato, nem um recurso que elimina dores emocionais sem esforço, tempo ou envolvimento ativo do paciente.
Terapia não é milagre, é processo
Um dos principais problemas da romantização é a expectativa de resultados rápidos. Na prática, a terapia é um processo gradual, que envolve:
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Autoconhecimento
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Enfrentamento de conflitos internos
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Mudança de padrões de pensamento e comportamento
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Desenvolvimento de habilidades emocionais
Essas mudanças exigem tempo, consistência e, muitas vezes, desconforto emocional. A ideia de que a terapia “cura tudo” pode gerar frustração quando o progresso não acontece no ritmo esperado.
A falsa ideia de que só a terapia basta
Outro risco da romantização é tratar a terapia como uma solução isolada, ignorando fatores igualmente relevantes, como:
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Condições socioeconômicas
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Ambiente familiar e profissional
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Estilo de vida (sono, alimentação, atividade física)
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Rede de apoio social
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Tratamento médico quando necessário
Problemas complexos raramente têm uma única causa ou uma única solução. A terapia é uma ferramenta poderosa, mas não atua sozinha.
Quando a terapia é usada como fuga
Em alguns casos, a romantização transforma a terapia em uma forma de evitar responsabilidades práticas. O indivíduo passa a compreender seus comportamentos, mas não avança para a mudança efetiva, usando o discurso terapêutico como justificativa para permanecer no mesmo lugar.
Autoconhecimento sem ação pode gerar estagnação emocional, ainda que o discurso pareça evoluído.
O impacto das redes sociais na banalização da terapia
As redes sociais desempenham papel central nesse fenômeno. Conteúdos curtos e simplificados frequentemente reduzem processos psicológicos complexos a frases prontas, como:
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“Tudo é trauma”
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“Se te faz mal, se afasta”
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“Você não é o problema, o mundo é”
Embora algumas mensagens tragam acolhimento, outras podem estimular interpretações distorcidas da realidade e da própria terapia, afastando o indivíduo de reflexões mais profundas e responsáveis.
Terapia não substitui diagnóstico nem tratamento médico
É fundamental destacar que a terapia psicológica não substitui avaliação psiquiátrica, acompanhamento médico ou uso de medicação quando indicado. A romantização pode levar pessoas a negligenciarem condições clínicas importantes, acreditando que apenas a fala terapêutica resolverá questões que exigem abordagens integradas.
A saúde mental deve ser tratada de forma multidisciplinar, quando necessário.
O papel ativo do paciente no processo terapêutico
Um aspecto pouco discutido na romantização da terapia é que ela exige participação ativa do paciente. Não se trata de apenas “desabafar”, mas de:
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Refletir sobre comportamentos
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Aceitar confrontos terapêuticos
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Revisar crenças pessoais
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Assumir responsabilidade pelas próprias escolhas
Sem esse engajamento, a terapia perde grande parte de sua efetividade.
Valorizar a terapia sem idealizá-la
Desromantizar a terapia não significa desvalorizá-la. Pelo contrário: significa reconhecê-la como o que ela realmente é — um instrumento sério, científico e transformador, quando utilizado de forma adequada e alinhada à realidade de cada indivíduo.
Ao abandonar a ideia de solução mágica, abre-se espaço para expectativas mais realistas e resultados mais consistentes.
Conclusão
A terapia é um recurso essencial para a promoção da saúde mental, mas sua romantização como solução universal pode gerar frustração, dependência emocional e negligência de outros fatores importantes da vida. O cuidado psicológico funciona melhor quando integrado a mudanças práticas, suporte social e, quando necessário, acompanhamento médico.
Tratar a terapia com responsabilidade é o primeiro passo para que ela cumpra seu verdadeiro papel: promover autonomia, consciência e transformação sustentável.




