O burnout, ou síndrome de esgotamento profissional, tem sido cada vez mais registrado no Ceará, acompanhando uma tendência nacional de aumento de transtornos mentais relacionados ao trabalho. Esse problema não é apenas um “cansaço extremo”: trata-se de uma condição reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como um fenômeno ocupacional que resulta de estresse crônico no ambiente de trabalho e pode impactar seriamente a saúde física e emocional dos trabalhadores.
O que mostram os dados recentes no Ceará
Dados oficiais indicam que os afastamentos do trabalho por transtornos mentais, incluindo burnout, aumentaram significativamente no Ceará entre 2021 e 2023. O número de benefícios concedidos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) por incapacidade temporária ou permanente devido a transtornos mentais e comportamentais — em que a síndrome de burnout está incluída — passou de cerca de 5,8 mil em 2021 para mais de 8,1 mil em 2023, um crescimento de 46% em dois anos.
Esse aumento pode refletir não apenas maior adoecimento, mas também um reconhecimento maior da síndrome como motivo de afastamento médico e laboral, além de mudanças na classificação de doenças ocupacionais adotadas pelo Ministério da Saúde.
Além disso, registros de notificações no Sistema de Informações de Agravos de Notificação (Sinan) mostram que, ao longo dos últimos anos, transtornos como ansiedade, depressão e burnout vêm sendo identificados com mais frequência no contexto de trabalho no Ceará — ainda que a subnotificação permaneça um desafio.
O que é burnout e como ele se manifesta
A síndrome de burnout é caracterizada por:
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Exaustão emocional persistente
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Redução do desempenho no trabalho
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Distanciamento ou cinismo em relação às tarefas profissionais
Esses sintomas são consequência de estresse crônico — quando demandas ocupacionais ultrapassam os recursos pessoais para lidar com elas. Pacientes frequentemente relatam fadiga profunda, insônia, irritabilidade, dificuldade de concentração e sensação de incompetência, que podem evoluir para quadros mais graves se não forem tratados.
Por que o burnout tem aumentado
O crescimento dos casos de burnout no Ceará está associado a uma série de fatores relacionados ao ambiente de trabalho e às condições sociais contemporâneas, tais como:
1. Sobrecarga de trabalho e metas irreais
Longas jornadas, pressão por produtividade e falta de recursos adequados aumentam o desgaste físico e emocional.
2. Ambientes competitivos e instabilidade
Mudanças constantes no mercado, insegurança no emprego e cobrança por resultados imediatos contribuem para o estresse crônico.
3. Reconhecimento e diagnóstico ampliados
A inclusão do burnout nas classificações internacionais de doenças como um fenômeno ocupacional e a maior conscientização entre profissionais de saúde facilitam diagnósticos e afastamentos quando comparados ao passado.
Impactos na saúde individual e coletiva
O burnout não afeta apenas a produtividade no trabalho — ele tem consequências diretas para a saúde mental e física do indivíduo. Casos não tratados podem evoluir para:
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Ansiedade e depressão
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Distúrbios do sono
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Problemas cardiovasculares
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Afastamentos prolongados do trabalho
Esses efeitos extrapolam a esfera pessoal e geram impactos sociais e econômicos mais amplos, especialmente em um contexto onde o número de afastamentos por transtornos mentais está em alta.
Grupos de risco no mercado de trabalho
Embora o burnout possa afetar trabalhadores de qualquer setor, algumas categorias apresentam maior vulnerabilidade, como:
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Profissionais da saúde — exposição contínua ao sofrimento e alta demanda emocional
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Professores — altos níveis de responsabilidade, turmas numerosas e metas administrativas
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Trabalhadores de atendimento e serviços — pressão por produtividade e metas diárias
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Bancários e trabalhadores administrativos — exigência repetitiva de tarefas e prazos curtos
Pesquisas acadêmicas específicas realizadas com profissionais de setores como auditoria e bancos em Fortaleza também indicam fortes associações entre estresse ocupacional e níveis elevados de burnout, especialmente em contextos pós-pandemia.
Prevenção e cuidado: o que pode ser feito
Para combater a crescente incidência de burnout, são necessárias ações coordenadas em diferentes níveis:
Nas empresas e organizações
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Redesign de tarefas e metas realistas
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Políticas de equilíbrio entre vida profissional e pessoal
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Treinamentos de gestão de estresse
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Cultura organizacional que valorize saúde mental
No nível individual
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Acesso a suporte psicológico ou psiquiátrico
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Rotinas regulares de sono, alimentação e atividade física
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Estratégias de gestão do tempo e limites entre trabalho e descanso
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Apoio social de colegas, familiares e redes de suporte
Pelo sistema de saúde pública
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Programas de vigilância e prevenção específicos para trabalhadores
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Ampliação de serviços de atenção à saúde mental
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Campanhas de conscientização sobre sinais precoces de burnout
Essas medidas não só ajudam a reduzir a incidência de casos, como também promovem ambientes de trabalho mais saudáveis e sustentáveis.
Conclusão
O aumento de casos de burnout no Ceará reflete mudanças nas condições de trabalho, maior reconhecimento médico da síndrome e crescente conscientização sobre saúde mental. O crescimento de afastamentos e diagnósticos indica que a síndrome deixou de ser um problema isolado para se tornar uma preocupação significativa de saúde pública e ocupacional.
Enfrentar o burnout exige ações integradas entre empregadores, profissionais de saúde, gestores públicos e trabalhadores, com foco na prevenção, no diagnóstico precoce e na promoção de ambientes laborais saudáveis.




